13 de maio de 2018 às 02:00

Afinal, somos livres?

No aniversário da Abolição da Escravidão, me parece adequado fazer uma reflexão sobre o livre arbítrio, que pode ser definido como a possibilidade de uma pessoa poder agir sem ser controlada por necessidades diversas ou pelas mãos invisíveis do destino. S

No aniversário da Abolição da Escravidão, me parece adequado fazer uma reflexão sobre o livre arbítrio, que pode ser definido como a possibilidade de uma pessoa poder agir sem ser controlada por necessidades diversas ou pelas mãos invisíveis do destino. Ser livre, essencialmente, é poder escolher ao que se prender.

Todo mundo quer ser livre; ou, pelo menos, ser capaz de escolher na vida. Temos nossas profissões, nossa família, nossos compromissos sociais. Por outro lado, a maioria das pessoas acredita ter a liberdade de escolher o que vai fazer, das atividades mais simples às mais complexas: devo por adoçante no meu café? Devo pôr dinheiro na poupança ou gastar tudo? Em quem voto nas próximas eleições? Devo casar com a Carmen ou virar monge no Tibete?

A questão do livre arbítrio é uma questão de agenciação, de determinar quem toma as decisões que definem o curso das nossas vidas. Tradicionalmente, é discutida por filósofos e teólogos. Ocasionalmente, por físicos interessados na questão do determinismo. Mas o contexto da conversa está mudando. Agora, faz parte, também, da neurociência, onde pesquisas têm investigado se temos mesmo essa liberdade de escolha.

Muitos consideram o livre arbítrio uma mera ilusão. O militante ateísta Sam Harris, por exemplo, escreveu um pequeno livre sobre o assunto em 2013. No meu livro A Ilha do Conhecimento, abordo também a questão, chegando a conclusões opostas às de Harris.

A inclusão da neurociência na discussão vem de uma série de experimentos que revelaram algo incrível: nossos cérebros parecem decidir o que vamos fazer antes de termos consciência disso.

Experimentos pioneiros de Benjamin Libet nos anos 1980, e outros recentes usando ressonância magnética funcional e implantes em neurônios que permitem monitorar atividade cerebral, indicam que a região motora do cérebro responsável por coordenar movimentos (respondendo a uma pergunta do tipo, “aperte o botão vermelho quando ver uma bola na tela”) decide o que fazer antes de a pessoa estar consciente disso. A diferença de tempo entre a ação motora e a conscientização dessa ação pode ser de segundos.

Os experimentos, em suma, indicam que o cérebro parece decidir antes de a mente se dar conta.

Se isso for verdade, as escolhas que achamos que estamos fazendo, expressão da nossa liberdade, estão sendo feitas subconscientemente, sem nosso controle explícito. Será que vivemos mesmo nesse estado ilusório, marionetes sob o controle de forças desconhecidas, internas ao cérebro?

Felizmente, a situação não é tão simples. Para começar, definir livre arbítrio é complicado. Uma definição operacional é que livre arbítrio é poder escolher mesmo quando estamos sujeitos a uma dose razoável de coerção. Obviamente, nossas vidas dependem de detalhes da nossa história pessoal além do nosso controle, desde a nossa genética pessoal ao contexto familiar e social da nossa infância e adolescência às experiências “acidentais” que temos ao longo dos anos.

Não somos uma tábula rasa, independentemente da nossa formação. Será, então, que é a nossa genética e o conjunto das nossas experiências pessoais que escolhem, como uma espécie de piloto automático, e temos apenas a ilusão de estarmos escolhendo? E quem, na verdade, é que escolhe nas nossas cabeças?

Imagine a seguinte situação: no futuro, cientistas serão capazes de mapear e decodificar nossos estados mentais com grande precisão. Nesse caso, poderiam, com seus modelos personalizados de nossos cérebros, prever como vamos escolher antes de termos consciência de nossa escolha. Se essa situação fosse, de fato, possível â?” e vejo uma série de obstáculos conceituais e práticos para sua realização â?” o livre arbítrio não existiria.

A mente, modelada como uma máquina, seguiria seus processos de forma determinística, sem surpresas. O que chamamos de livre arbítrio seria equivalente ao intervalo de tempo entre o cérebro fazer a escolha subconscientemente e o momento em que achamos que estamos escolhendo. Seria nossa ignorância de que esse intervalo de tempo existe.

Esse tipo de abstração é apenas uma fantasia; máquinas não podem medir nossos estados mentais seguindo a cada instante a ação de 85 bilhões de neurônios e seus trilhões de conexões mútuas. Não somos nem capazes ainda de definir o que é um “estado mental” ao nível neuronal, muito menos de medir um. Talvez esse tipo de medida seja impossível.

Existe um risco grande, em ciência, de trivializar uma questão complexa de forma a transformá-la em algo mais maleável, que pode ser analisado quantitativamente. Essa técnica reducionista é muito útil, mas pode criar a ilusão de sabermos mais do que sabemos sobre um determinado assunto. Isso certamente ocorre na aplicação da neurociência ao livre arbítrio.

Os experimentos sendo feitos são limitados a decisões simples, muito distintas das escolhas complexas que temos que fazer nas nossas vidas, que envolvem conflito, dúvida, reflexões sob várias perspectivas, ou conversas com outras pessoas.

Isso tudo leva tempo, até que, após muita ponderação, chegamos a uma conclusão a que passo tomar. Existe uma enorme diferença entre apertar um botão num laboratório e escolher um companheiro para a dividir a vida, uma profissão, ou se vamos cometer um crime. (Excluindo, obviamente, uma mente psicopata.)

Existe um amplo espectro de complexidade referente às decisões que tomamos na vida, das mais simples às mais convolutas, e esse espectro é refletido na questão do livre arbítrio. Algumas delas, as mais simples, ocorrem ao nível subconsciente, antes de nos darmos conta. Já outras, não.

A questão do livre arbítrio, dado que ela representa, da forma mais direta que conhecemos, toda a complexidade da nossa existência enquanto seres pensantes, cheios de paixões e dúvidas sobre como viver nossas vidas, não pode ser trivializada a uma mera polarização entre “existe e não existe”.

Fonte: FOLHA

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