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11 de julho de 2018 às 02:00

'Brexit' light é o único viável, afirma embaixador britânico no Brasil

Apesar de as baixas recentes no gabinete da primeira-ministra Theresa May indicarem falta de coesão no governo conservador quanto à condução do ?brexit? (o desligamento do Reino Unido da União Europeia), a melhor saída para o processo ainda é a via suave,

Apesar de as baixas recentes no gabinete da primeira-ministra Theresa May indicarem falta de coesão no governo conservador quanto à condução do “brexit” (o desligamento do Reino Unido da União Europeia), a melhor saída para o processo ainda é a via suave, lenta, “soft”.

A opinião é do embaixador britânico no Brasil, Vijay Rangarajan, segundo o qual “ninguém está pedindo por um choque econômico agora, até por causa da incerteza do mundo, cheio de outros potenciais choques, como a guerra comercial em curso entre EUA, China e Europa”.

Decidida por plebiscito em junho de 2016, a separação do Reino Unido do bloco europeu deve ser efetivada em 29 de março de 2019. Por ora, os termos do divórcio permanecem nebulosos, o que tem impacientado os negociadores pelo lado da Europa e os correligionários de May que pleiteiam um afastamento rápido e duro (o “hard brexit”), que retire imediatamente as ilhas da jurisdição das instituições comuns do continente.

Essa ala estrilou no fim da semana passada, depois de a chefe de governo anunciar que seu gabinete tinha fechado posição sobre uma proposta de acordo de livre-comércio com a Europa para bens e produtos agrícolas.

No domingo (8), o secretário para o “brexit”, David Davis, pediu as contas, sob a justificativa de que o possível tratado cedia “muito e muito facilmente” aos europeus.

No dia seguinte, foi a vez do chanceler Boris Johnson, um dos arautos de primeira hora do divórcio, para quem o acordo a ser submetido a Bruxelas faria o Reino Unido flertar com o “status de colônia”, ou seja, comprometeria sua soberania. Os desfalques jogaram uma crise política no colo de May.

“Se nos mobilizarmos por uma separação rápida da UE, vamos criar problemas alfandegários e prejudicar muito indústrias essenciais, como a automotiva ou qualquer outra que envolva uma cadeia de suprimentos”, afirma Rangarajan. “Uma separação lenta é outra história.”

Apesar da turbulência, parece afastado por enquanto o risco de um questionamento da liderança da conservadora. “A última coisa a se fazer neste momento complicado de negociação é um voto de desconfiança na primeira-ministra [são necessários 48 signatários para a moção ir a plenário e, em seguida, 159 votos para aprová-la]”, avalia.

“Há disposição da UE de estudar essa proposta [de ?soft brexit?] detidamente, avaliar quais são as ?linhas vermelhas? que o bloco quer fixar. Nosso foco é ter um acordo em outubro, a tempo da reunião do Conselho Europeu”, completa.

Ao longo da entrevista com a Folha, o embaixador alterna os adjetivos “longo”, “complicado” e “difícil” para se referir ao processo de negociação do “brexit”. E buscou chamar atenção para outras páginas da agenda britânica, como a cúpula da Otan (nesta quarta, 11), a visita do presidente americano, Donald Trump, ao Reino Unido (a partir da quinta, 12) e a necessidade de controlar o uso de armas químicas em escala global.

Sobre a relação com Washington, o diplomata afirma haver “desacordos em relação a alguns assuntos comerciais, à mudança climática e ao tratamento de crianças na fronteira com o México”. 

“Mas concordamos em muitas outras coisas, como na necessidade de os membros da Otan gastarem mais em defesa. E tivemos muito apoio dos americanos no caso da expulsão de diplomatas russos [após o envenenamento do ex-espião Serguei Skripal na Inglaterra]”, diz.

O status das relações bilaterais com Moscou é distinto, ainda mais após a morte, no último fim de semana, de uma britânica que teve contato com um objeto contaminado por Novitchok, o agente nervoso usado para atacar Skripal e sua filha.

“Não paramos de nos falar, mas existem divergências consideráveis. Vimos nos últimos anos a ação russa na Crimeia, na Ossétia do Norte, em Moldova. Depois, as tentativas direcionadas de homicídio. Há muitas mortes suspeitas de pessoas que se opunham ao governo russo”, afirma o embaixador.

“Nossa reação nesse caso é de mirar menos a Rússia e mais o uso de armas químicas por qualquer país, que é um horror. Há de se manter uma proibição global de seu uso. Afinal, todos são alvos em potencial de quem queira [usá-las para] ameaçar ou chantagear.”

Fonte: FOLHA

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