28 de maio de 2018 às 02:00

Casais importam sêmen dos EUA com busca que inclui semelhança com famosos

Ativo, com ambições de sucesso, que goste de cachorros, cristão, alto e de olhos azuis. "Buscar."

Ativo, com ambições de sucesso, que goste de cachorros, cristão, alto e de olhos azuis. "Buscar."

Parece um site de encontros. Mas são os critérios de busca de um banco de esperma nos Estados Unidos, país que vem exportando um número crescente de sêmen para casais ou mulheres brasileiras que tentam engravidar.

Os dados atuais da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) mostram que as importações de sêmen dos EUA, que podem custar até R$ 5.000 por amostra, cresceram 2.500% nos últimos cinco anos.

Em termos de mercado, o brasileiro ainda é pequeno: foram 436 amostras importadas em 2016, segundo a Anvisa, das quais nasceram pelo menos 157 crianças.

Mas o país já está entre os dez principais destinos dos bancos americanos. A regulamentação do casamento gay no Brasil, em 2013, e o crescimento do interesse de mulheres solteiras pela inseminação deve aumentar a procura pelo serviço, diz Fredrik Andreasson, diretor do Seattle Sperm Bank.

Até agora, o doador de mais sucesso no Brasil foi o de número 4282 do Fairfax Cryobank: foram 30 amostras enviadas até 2016, segundo a Anvisa. É um físico de olhos verdes, com doutorado, que adora gatos e sonha em ser famoso. É descrito como "extremamente inteligente, pragmático e amigável" --e "parecido com o Matt Damon".

Não fuma, não bebe e em sua família não há casos de ataque cardíaco, demência, câncer e nem sequer acne. Nem óculos ele usou.

Entre os motivos da importação está justamente a grande possibilidade de escolha nos bancos americanos. 

"Bancos nacionais não têm quase nada. Eu sou bem detalhista", diz Kauê, 43 (nome fictício), que optou pela importação. "Eu sempre tive vontade de ter um filho, mas não sozinho. Eu queria alguém para fazer uma família", conta o professor, que começou a concretizar o plano ao conhecer Aline, 45 (nome fictício).

São dele os óvulos (Kauê é um homem trans) que, gestados por Aline, gerarão o bebê, que já tem à sua espera um berço, roupinha e até conta de Instagram dedicada à criança e à fertilização.

Os doadores americanos, que recebem pela amostra (ao contrário do Brasil, em que a doação é voluntária), expõem em suas fichas fotos da sua infância, uma entrevista em áudio sobre sua personalidade, preferências de música, religião, sonhos de vida e hobbies.

No Fairfax Cryobank, responsável por 70% das amostras enviadas ao Brasil, o doador número 5607, por exemplo, é descrito como "charmoso, jovial e de mente aberta".

"Eu não tive muitas oportunidades para conhecer o mundo. Minha grande aspiração é visitar todos os países", diz ele, em um áudio disponível no site --por mais US$ 37 (cerca de R$ 130), é possível ouvir a entrevista completa.

Os "extras" ainda incluem testes de personalidade ou fotos da vida adulta. E é possível buscar os doadores por signo, animal favorito, objetivos de vida como "fama", "ser feliz", "melhorar o meio ambiente" ou "ajudar as pessoas".

Há até banco que filtra a busca por "celebridades": no Califórnia Cryobank, o maior do país, é possível achar um doador que se parece com Nick Carter, o backstreet boy loiro; ou "Renaldo", jogador de futebol brasileiro (cujo doador tem o codinome de "Amante Latino"); ou com "Bruce Willis jovem", ou "Jonah Hill magro". Tem até um "príncipe Harry".

Luzia, 42 (nome fictício), que junto com sua esposa Isa, 42 (nome fictício), também importou material genético, classifica os "extras" como motivo de risada para ela. 

"É uma viagem. Para mim é desnecessário. Pensa numa mulher que está querendo ter filho e já chegou numa certa idade. Você começa a ler essas coisas e vai criando fantasias, acha que a criança vai ser aquele cara perfeito", diz Luzia. "Nunca vão dizer que o cara é escroto."

No início de sua pesquisa para gerar uma criança, Luzia temia pela proximidade de possíveis doadores paulistanos e pela possibilidade de, um dia, estar no mesmo ônibus do doador.

O que realmente levou a produtora audiovisual aos bancos estrangeiros foram os dados aprofundados disponíveis, principalmente sobre o histórico de saúde familiar. 

"As pessoas querem informação. A personalidade do doador pode não ser o primeiro critério de escolha, mas todo mundo lê tudo. E se algo não bate... Exclui", diz à Folha José Roberto Alegretti, diretor científico do Fairfax Cryobank no Brasil.

Quem quer um filho fisicamente parecido com o parceiro ou com si próprio pode usar o sistema de reconhecimento facial, que encontra o doador com os traços mais semelhantes possíveis.

"Nosso critério foi escolher características muito parecidas com a Isa", diz Luzia, explicando que serão dela os óvulos usados na fertilização. "Essa parte é bem divertida."

Mulheres solteiras representam quase 40% dos pedidos por importação de sêmen. Os casais heterossexuais somam outros 40%, e os homoafetivos, 20%.

Segundo Alegretti, o casal hetero procura uma cópia exata do pai. "Já o casal homoafetivo quer uma mistura dos dois, tanto em aparência quanto em personalidade."

O relatório da Anvisa informa que a maioria das amostras importadas ao Brasil foi de doadores brancos, de olhos azuis e cabelos castanhos --num país onde mais da metade da população é negra. 
 

Hitomi Nakagawa, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, associa essa distorção a um reflexo da clientela, branca, de alta renda e moradora do estado de São Paulo.

A guerra de mercado entre os bancos americanos, assim como a remuneração ao doador, que recebe entre US$ 70 e US$ 150 por amostra, é apontada como motivo para a grande oferta de sêmen (e o detalhamento exaustivo dos futuros "pais") nos EUA, em comparação com o Brasil.

São 566 doadores no Califórnia Cryobank, por exemplo. O Seattle Sperm Bank tem 200, e o Fairfax Cryobank, 410. No maior banco brasileiro, o Pro-Seed (que também auxilia em processos de importação), são 180 atualmente.

Mas, para Vera Brand, diretora do Pro-Seed, a proibição ao pagamento pela doação não é um grande problema. Segundo ela, as doações gratuitas brasileiras estão ligadas ao altruísmo. 

O mais recente diferencial competitivo americano é o teste genético: as futuras mães podem escolher eliminar da busca doadores que tenham a mesma predisposição para uma determinada doença. A ferramenta, por enquanto, é mais popular entre clientes dos EUA e da Europa, onde o teste genético é mais disseminado, segundo Andreasson.

Brasileiros tendem a se concentrar primeiro nas similaridades físicas, e depois no histórico médico.

Segundo Vera Brand, o teste genético doenças hereditárias está no horizonte do banco brasileiro, que quer ampliar os dados fornecidos pelos doadores.

Atualmente, os doadores brasileiros relatam doenças na família. Em casos de doenças genéticas, a amostra do doador é excluída, diz Brand.

Fonte: FOLHA

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