07 de maio de 2018 às 02:00

Em aplicativos de mensagem, cientistas criam parcerias para pesquisas

"Estava desenvolvendo um projeto de divulgação científica com um pós-doutorando que acompanhava pelo Twitter, mas foi no grupo do Telegram que o conheci melhor Carlos Hotta Professor do Instituto de Química da USP

"Estava desenvolvendo um projeto de divulgação científica com um pós-doutorando que acompanhava pelo Twitter, mas foi no grupo do Telegram que o conheci melhor Carlos Hotta Professor do Instituto de Química da USP

São Paulo "?Nada de mensagens com imagem de gatinhos, memes de políticos ou "bom dia, grupo!". Pesquisadores e profissionais do terceiro setor encontram nos grupos de WhatsApp e de Telegram uma forma de fazer parcerias em pesquisas e projetos.

Esses grupos, dizem os cientistas, trazem mais proximidade e facilitam a comunicação, em oposição a redes sociais como Twitter e Facebook. Também ganham pontos pela sensação de segurança na hora de compartilhar resultados de estudos ou ideias de projetos.

"Estava desenvolvendo um projeto de divulgação científica com um pós-doutorando que acompanhava pelo Twitter, mas foi no grupo do Telegram que o conheci melhor", conta Carlos Hotta, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo. Ambos trabalham na área de botânica, com plantas.

Hotta ingressou neste ano no grupo restrito a assinantes do podcast Dragões na Garagem, com 133 membros, criado por pesquisadores para divulgar a ciência. "Pelo Twitter não dá para 'sentir' direito a pessoa, é diferente conversar em um ambiente mais livre de um grupo", explica Hotta.

Felippe Abbatepaulo, oceanógrafo e vice-presidente da ONG Oceano à Vista!, e João Malavolta, diretor executivo da ONG Instituto Ecosurf, também se conectaram por um grupo de WhatsApp, o GT Ouvidoria do Mar, ligado ao coletivo autônomo de mesmo nome criado durante a Cúpula dos Povos na Rio+20 em 2012. O grupo reúne pesquisadores e divulgadores relacionados ao ambiente marinho.

"Estou no grupo desde 2016, mas a nossa conversa começou em janeiro deste ano. Malavolta mora em Itanhaém, eu estava lá, mandei mensagem e combinei de nos encontrarmos", conta Abbatepaulo, que vive em São Paulo.

Ambas as organizações das quais eles fazem parte realizam projetos de limpeza de praias. "Em termos gerais, as duas buscam um ambiente costeiro mais saudável", afirma Abbatepaulo. "Queremos unir as duas iniciativas. Quanto mais gente se envolver nelas, mais impacto você causa", acredita.

A ONG Oceano à Vista! desenvolve o projeto "Limpa, Oceano!". Nas faculdades de oceanografia é uma espécie de trote solidário em que os calouros recolhem o lixo das praias e têm palestras sobre a profissão.

A ação de limpeza também é feita no Dia Mundial dos Oceanos, celebrado em 8 de junho, e no Dia Internacional da Limpeza de Praias e Rios, comemorado em 20 de setembro. O Instituto Ecosurf também faz ações Limpeza de Praia em diversos estados brasileiros ao longo do ano.

"Juntando o pessoal que é mais ligado ao surf vamos conseguir mesclar a experiência de quem está aproveitando a praia como local de lazer com a dos profissionais que lidam com os mares na profissão", afirma Abbatepaulo. "Vamos unir nossas abordagens. Além da conscientização, podemos fazer pesquisa com esse material", explica o oceanógrafo.

A troca de mensagens ocorre, inclusive, entre países. Priscila Torres, coordenadora do processo de seleção do Premios Latinoamérica Verde promovido por uma consultoria ambiental do Equador, criou há menos de um ano um grupo de WhatsApp com pessoas que fazem parte de projetos finalistas na área de diversos países do continente, como o Brasil.

"Isso gera um networking interno com relações entre diferentes participantes, melhorando e ampliando seus contatos para possíveis alianças", explica Torres. "Compartilhar experiências e notícias motiva e influencia o desenvolvimento de oportunidades", diz.

Quem faz parte desse tipo de grupo elogia o fato de ser objetivo. "No meio de tanta informação circulando, os grupos garantem que esta chegue com qualidade", afirma Raniere Pontes, administrador e pedagogo, criador em setembro do ano passado do grupo aberto de WhatsApp Gestão do Terceiro Setor, com 164 membros.

Com frequência, as conversas são desmembradas dentro deles. Tem quem discuta apenas sobre um assunto. "Mas os temas mais comuns são questões de saúde mental na pesquisa, problemas burocráticos da ciência, novos estudos e questões de pós-graduação e de políticas científicas", revela Hotta.

Segundo o professor da USP, as pessoas não entram com a intenção de montar projetos.

"Mas como há afinidades entre elas, é fácil encontrar pontos de interesse. Daí, para surgir a parceria basta um passo", afirma. E por ser um ambiente mais profissional, as incômodas mensagens no estilo spam são praticamente inexistentes.

Em inglês, o ResearchGate se tornou uma espécie de 'Facebook da ciência'. Academia.edu também é bastante usado. Antes deles, tentativas falhas incluíram o Scientist Solutions, SciLinks, Epernicus e 2collab

Para as revistas científicas, porém, há risco de esses sites serem uma forma de compartilhar estudos de acesso restrito ilegalmente. Só em 2013 a Elsevier mandou mais de 3.000 avisos ao site Academia.edu e outros pedindo que retirassem materiais protegidos por direitos autorais

Fonte: FOLHA

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