17 de maio de 2018 às 02:00

Fósseis pré-históricos são achados em área de invasão em Curitiba

Fósseis de animais que viveram entre 42 milhões e 39 milhões de anos atrás foram encontrados em um terreno de 16 hectares de Curitiba, em um local rodeado por áreas de invasão e aos fundos de um antigo aterro de lixo hospitalar.

Fósseis de animais que viveram entre 42 milhões e 39 milhões de anos atrás foram encontrados em um terreno de 16 hectares de Curitiba, em um local rodeado por áreas de invasão e aos fundos de um antigo aterro de lixo hospitalar.

Até ser tombada pela prefeitura, no fim de março, a área havia sofrido tentativas de ocupação irregular.

É a primeira vez que se descobrem animais desse período geológico em solo brasileiro. São bichos extintos e que se assemelham aos atuais tatus, preguiças, tamanduás, crocodilos, marsupiais e animais com cascos (parentes dos cavalos).

Outros parecem fruto de ficção científica, como as chamadas "aves do terror". Eram pássaros carnívoros, com bico longo e afiado, que não voavam e chegavam a medir até dois metros de altura. Estão extintos há alguns milhões de anos.

Foram encontrados ainda três gêneros sem nenhum paralelo com os animais que vivem hoje, chamados sparassodontes. Eram predadores carnívoros, com molares cortantes e grandes dentes caninos. Alguns atingiam o porte de uma onça.

Como o trabalho ainda está em andamento, pesquisadores avaliam que outras surpresas devem aparecer. 

Além de especialistas da UFPR (Universidade Federal do Paraná), que comandam a pesquisa, trabalham no projeto enviados de São Paulo, Rio Grande do Sul e Pernambuco.

No período em que os animais viveram, o continente sul-americano era descolado dos demais (inclusive da América do Norte), fazendo com que a fauna tivesse características peculiares. 

Bichos semelhantes foram encontrados somente na Patagônia argentina, levando a crer que haveria um bolsão de ligação da região até o litoral do Paraná.

Para os pesquisadores, os achados ajudam a elucidar como se deu a evolução das espécies na América Latina. "São bichos primitivos, mas essenciais para entender o que houve nos 60 milhões de anos em que a América do Sul ficou completamente isolada", diz o professor e paleontólogo da UFPR, Fernando Sedor.

O presidente da Sociedade Brasileira de Paleontologia, Renato Ghilardi, diz que o trabalho é visto com interesse no meio científico pela possibilidade de desvendar enigmas do passado. 

"Há uma série de controvérsias sobre as rotas migratórias de animais e sobre como no passado eles estavam inseridos".

O terreno em que os fósseis foram encontrados era utilizado pela universidade há mais de 20 anos, para aulas de geologia. Mas somente em 2013 os primeiros fragmentos de animais apareceram. E o reconhecimento só veio com a publicação do estudo na revista científica americana Journal of Mammalian Evolution, uma das mais bem conceituadas do mundo sobre mamíferos.

O local é um espaço privilegiado: fica ao lado de uma via de acesso importante de Curitiba --a avenida Juscelino Kubitschek-- e perto de fábricas e indústrias. 

Por causa disso, acabou se tornando alvo de tentativas de ocupações irregulares e especulação imobiliária. A última tentativa de ocupação irregular do terreno aconteceu no ano passado. Antes de começarem a construir no local, as pessoas foram removidas pela prefeitura.

Por causa dos riscos de prejuízo ao trabalho científico, a UFPR e o município de Curitiba formalizaram um acordo para transformar o terreno em um parque da cidade. O tombamento da área como de relevante interesse ecológico foi assinado pelo prefeito Rafael Greca (PMN) em 29 de março.

A ideia é que, no parque, as pessoas possam ver o trabalho dos pesquisadores em tempo real e até simular o trabalho de um paleontólogo --algo que pode agradar especialmente os fãs da série de filmes "Jurassic Park". 

O parque deve ser aberto ao público e para escolas no segundo semestre do ano que vem, segundo a prefeitura.

"No momento estamos tomando providências para cercar a área", afirma a secretária de Meio Ambiente de Curitiba, Marilza Oliveira Dias, como uma maneira de impedir novas tentativas de invasão e preservar o local.

Fonte: FOLHA

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