04 de maio de 2018 às 02:00

Intensificar produção de açaí pode ser tiro no pé e acabar com o fruto

A coleta e o cultivo do açaí viraram uma importante opção econômica para moradores da Amazônia nas últimas décadas, rendendo cerca de R$ 500 milhões por ano à região, mas a intensificação excessiva da produção pode acabar com a galinha dos ovos de ouro. 

A coleta e o cultivo do açaí viraram uma importante opção econômica para moradores da Amazônia nas últimas décadas, rendendo cerca de R$ 500 milhões por ano à região, mas a intensificação excessiva da produção pode acabar com a galinha dos ovos de ouro. 

Ou, para ser mais exato, com as abelhas nativas -- responsáveis, em grande parte, por boas colheitas nos açaizeiros.

Essa é a principal conclusão de uma pesquisa da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), que mapeou a presença de espécies polinizadoras e a relação dessa variável com a produtividade em diferentes propriedades rurais do Pará. 

O estudo indica que uma fauna saudável de insetos nativos leva a colheitas até 25% mais polpudas, e a presença dos bichos, por sua vez, depende de uma vizinhança com mata. Derrubar tudo para plantar só açaizeiros, portanto, equivale a um tiro no pé tanto do ponto de vista econômico quanto do ambiental.

"Acho que é uma mudança de filosofia importante para o contexto brasileiro", afirma Cristiano Menezes, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental e um dos autores do estudo, publicado recentemente na revista especializada "Journal of Applied Ecology". "O produtor muitas vezes acaba pensando na reserva legal de mata na sua propriedade como um passivo, algo que ele não pode aproveitar. A gente está vendo que é o contrário: essa reserva é um ativo."

No trabalho, coordenado por Alistair Campbell e assinado também por outros cientistas de instituições do Brasil e de Portugal, a equipe analisou um total de 18 locais de colheita de açaí na região do estuário do rio Amazonas. 

Metade das áreas analisadas fica na chamada várzea, região que inunda durante a época das cheias, onde o costume é coletar os frutos dos açaizeiros que crescem naturalmente por ali. A outra metade corresponde a locais ditos de "terra firme", ou seja, que não alagam, onde as palmeiras que dão os frutos foram plantadas.

Essa variabilidade geográfica permitiu que os cientistas analisassem diferenças de produtividade nos vários regimes de exploração dos açaizeiros. 

Nas várzeas, há produtores que preservam uma quantidade considerável de trechos de mata no entorno das palmeiras que exploram, enquanto outros têm optado por tirar muitas das árvores que não produzem açaí da paisagem. Já nas plantações de terra firme, normalmente em áreas já desmatadas ou degradadas, há menos mata preservada no entorno.

Como muitas outras plantas de importância comercial, os açaizeiros dependem de insetos para carregar o pólen de suas flores, fecundando-as e produzindo frutos. 

As flores da palmeira são consideradas entomófilas ("amigas dos insetos", em grego), o que significa que vários grupos diferentes de invertebrados (abelhas, é claro, bem como besouros, vespas e outros) podem realizar esse serviço essencial, em vez de apenas um, graças ao formato relativamente genérico das flores (outras plantas possuem especializações evolutivas voltadas para um único tipo de inseto "parceiro").

Em tese, isso faria do açaizeiro uma espécie menos especializada no que diz respeito à polinização e, portanto, menos vulnerável a variáveis como a mata relativamente abundante necessária para que uma boa diversidade de insetos esteja presente (isso porque muitos desses bichos também precisam de uma variedade de espécies de árvores para conseguir alimento em abundância e de qualidade ao longo do ano todo).

De certa maneira, a relação entre perda de polinizadores naturais e diminuição da produção, com cachos de açaí menos generosos, é o esperado -- coisas parecidas já foram vistas em plantações de café, que também se beneficiam da mata no seu entorno. 

Entretanto, Menezes e seus colegas flagraram um detalhe crucial: o maior impacto positivo para a polinização do açaí vem justamente do grupo das chamadas abelhas-mosquitos, insetinhos normalmente desprezados até por quem se interessa pela criação de abelhas nativas do Brasil por causa de sua produção modesta de mel.

"A questão é que elas visitam as flores masculinas e as flores femininas do açaizeiro com a mesma frequência, ao contrário de outras abelhas, como a doméstica, que prefere flores de um sexo só", explica o pesquisador. E isso, é claro, reflete-se em mais fecundações e mais frutos.

Menezes conta que já estão sendo desenvolvidos métodos eficientes de manejo das abelhas-mosquitos para que seja possível introduzi-las em fazendas, mas não é nada fácil substituir a proximidade com a floresta. 

Para os produtores tradicionais na várzea, ele afirma que a melhor opção é manter corredores ecológicos de mata entre as áreas manejadas. Nos trechos já desmatados de terra firme, compensa tanto reflorestar parte da propriedade quanto reintroduzir os insetos.

"A gente está vendo que a diversidade de espécies em si faz diferença", explica. "Uma espécie de inseto interfere com o comportamento da outra, ou polinizam em horas diferentes do dia, por exemplo. E tudo isso se reflete numa produção maior."

Fonte: FOLHA

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