06 de junho de 2018 às 02:00

Mulheres contam verdades ginecológicas em evento que celebra menstruação

Quando o assunto é menstruação, toda mulher tem uma história sobre "aqueles dias" --a primeira vez em que ela viu sangue em sua calcinha, aquela vez em que ela teve de amarrar uma blusa em torno da cintura para esconder uma mancha na calça branca ou aquel

Quando o assunto é menstruação, toda mulher tem uma história sobre "aqueles dias" --a primeira vez em que ela viu sangue em sua calcinha, aquela vez em que ela teve de amarrar uma blusa em torno da cintura para esconder uma mancha na calça branca ou aquela vez em que o ciclo se manifestou no momento menos oportuno.

"Eu estava na maior pegação com o namorado", disse Njambi Morgan, poeta e artista performática, compartilhando seu momento com uma plateia de dezenas de pessoas. "Pensei que as coisas estavam acontecendo como no cinema. Uma coisa levou a outra, e aí ele se ergueu de repente... Nunca vi uma cara como aquela". Morgan imitou uma voz de garoto adolescente: "Você manchou de sangue o sofá da minha mãe!"

"Comecei a chorar", contou Morgan. "Nunca tinha me sentido tão envergonhada".

A história foi uma das 18 performances temáticas que aconteceram no New Woman Space, em Brooklyn, Nova York, na semana passada, como parte da Period Party (ou festa da menstruação). 

O evento, organizado pela escritora e organizadora comunitária Sara Radin, tinha o objetivo de celebrar aspectos da saúde ginecológica sobre o qual as pessoas costumam falar em voz bem baixa.

Ao longo da noitada, mulheres relataram momentos dolorosos e de imensa vergonha. "

Antes que as performances começassem, as participantes bateram papo, se inscreveram para uma rifa de brindes oferecidos por patrocinadores como os fabricantes de copos menstruais The Diva Cup e Lola e depositaram doações de absorventes higiênicos destinadas à #HappyPeriod, uma organização sem fins lucrativos que oferece produtos de higiene menstrual a mulheres sem recursos para comprá-los ou que não têm acesso a eles.

Algumas mulheres falaram com franqueza sobre o lado positivo de seus ciclos menstruais, o que inclui interesse em sexo durante a menstruação. Outros temas foram o medo e a paranoia que acompanham a primeira menstruação, as dificuldades e maravilhas dos absorventes higiênicos, cólicas menstruais, dores de cabeça e apetites estranhos e os códigos e gestos secretos que as mulheres desenvolveram para evitar revelar a vista mensal ao resto do mundo.

Nos últimos anos, o estigma que acompanhava a menstruação se reduziu, em parte graças ao trabalho de empreendedores, celebridades e ativistas. Produtos alternativos de marcas como The Diva Cup, Lola e Thinx reordenaram a maneira pela qual empresas e consumidores lidam com a menstruação. 

Figuras públicas como Lena Dunham, Chrissy Teigen e Angelina Jolie começaram a falar mais abertamente sobre as diversas lutas que ser mulher acarreta. Artistas como Rupi Kaur vêm desafiando a repulsa muitas vezes associada a uma experiência feminina comum. Mesmo assim, as mulheres continuam a esconder os absorventes e sentem vergonha quando algumas gotas de sangue vazam para suas roupas.

"Há uma clara falta de educação para a menstruação, uma falta de conscientização e abertura", disse Radin, a organizadora do evento. "Isso cria muito estigma e vergonha e nos pressiona a sofrer por trás de portas fechadas". 

Ela experimentou o lado mais negativo possível de esconder suas dificuldades, ao descobrir na metade do ano passado que as dores que sentia durante o período menstrual já há cinco anos eram causadas por um fibroma ovariano, um tumor sólido de ovário, que teve de ser removido cirurgicamente.

A experiência a levou a perceber que compartilhar sua história e encorajar outras mulheres a fazerem o mesmo poderia ser o começo de uma abordagem mais positiva e mais simpática quanto à menstruação.

Aanchal Jiwrajka, que cresceu na Índia e Indonésia, deu exemplos de como a vergonha com relação à menstruação é transmitida de geração a geração, citando a lista de regras que sua mãe a instruiu a seguir depois de sua primeira menstruação: não chegar perto do templo e de flores e plantas no jardim porque elas definhariam e não sentar no sofá ou em qualquer lugar em que o pai dela costumasse se sentar.

Algumas das mulheres que falaram durante o evento expressaram alguma hesitação em falar em público sobre um assunto que costuma ser discutido em segredo ou por meio de eufemismos.

"O tema é meio tabu", disse Jennifer Picht, uma das diversas mulheres que falaram abertamente sobre a Síndrome do Ovário Policístico, ou SOP. "Os anunciantes sempre tentaram disfarçar o fato de que a mulher está menstruada, mostrando mulheres correndo na praia ou saltando sobre um cara qualquer para andar de cavalinho. Esta noite, estamos tendo um vislumbre da realidade da coisa".

Tradução de Paulo Migliacci

Fonte: FOLHA

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