Notícias

31 de janeiro de 2018 às 08:21

Mundialíssimo: Por que iranianas estão desvestindo o véu islâmico?

Um pedaço de pano dependurado em um graveto pode não significar muito para um leitor brasileiro deste Mundialíssimo blog. Mas, no Irã, o gesto tem beirado uma pequena revolução. Algumas mulheres subiram nas últimas semanas nas calçadas do país, retiraram

Um pedaço de pano dependurado em um graveto pode não significar muito para um leitor brasileiro deste Mundialíssimo blog. Mas, no Irã, o gesto tem beirado uma pequena revolução. Algumas mulheres subiram nas últimas semanas nas calçadas do país, retiraram o véu islâmico e protestaram contra a imposição conservadora de cobrir o cabelo. Ao menos duas foram detidas.

As “meninas da rua da Revolução” –#GirlsOfRevolutionSt, no hashtag do Twitter– fazem parte de um movimento mais amplo de contestação da política iraniana e podem sinalizar mudanças para o próximos anos. Mas o que exatamente está acontecendo? Algumas perguntas e respostas abaixo:

#?????_?????? pic.twitter.com/bgQl2f1Dmr

â?” Mojtaba Nariman (@mojtaba_nariman) 29 de janeiro de 2018

O QUE ESTÁ ACONTECENDO?
Ao menos seis mulheres iranianas protestaram na segunda-feira contra a imposição do véu. Elas subiram na calçada e colocaram seus lenços em um graveto. O gesto não é nada trivial no Irã, onde tais desafios à autoridade costumam ser punidos. Mas, segundo o jornal americano “New York Times”, “ninguém se manifestou” quando uma daquelas mulheres retirou o véu na capital, Teerã. “Na verdade, ela foi aplaudida por muitas pessoas. Taxistas e uma mulher mais velha tiraram uma foto dela. A polícia, que mantém uma base na praça, ou não a viu ou decidiu não interferir.”

POR QUE PROTESTAR AGORA?
Essas pequenas e isoladas manifestações seguem o exemplo de Vida Movahed, 31, que retirou seu véu no dia 27 na rua Enghelab –ou rua da Revolução, daí o nome do movimento. Movahed, que participava de uma onda de protestos políticos contra o regime iraniano, foi detida por mais de um mês e hoje é defendida pela renomada advogada Nasrin Sotoudeh. Sotoudeh anunciou a soltura dela, mas seu paradeiro segue desconhecido. Outra mulher foi detida nesta semana devido ao véu.

O QUE TUDO ISSO SIGNIFICA?
A onda de protestos de dezembro, com centenas de detenções, deixou evidente a insatisfação popular contra o governo do país. As manifestações começaram em um reduto conservador, inicialmente motivadas pela crise econômica — o desemprego entre jovens ultrapassa os 40% em algumas regiões do país, segundo estimativas não oficiais. Conversei recentemente sobre isso com o pesquisador americano-iraniano Esfandyar Batmanghelidj. Nesse contexto, os protestos contra o véu são mais uma rachadura, e mais uma pressão ao governo do presidente Hassan Rouhani.

AS MULHERES VÃO ABANDONAR O VÉU?
É pouco provável. Mesmo se fosse opcional, o véu ainda assim seria vestido por uma porção considerável da população. A prenda está enraizada na cultura local e em uma tradição islâmica mais ampla como símbolo de piedade e modéstia. O que parece importante nestes últimos meses é o relaxamento das leis — as autoridades anunciaram recentemente, por exemplo, que mulheres dirigindo sem o véu não serão mais detidas, e sim receberão multas de pequeno porte. O cenário ideal, para as ativistas, é que as mulheres possam escolher se querem ou não vestir o lenço.

POR QUE O VÉU É OBRIGATÃ"RIO NO IRÃ?
O regime iraniano, instituído após a Revolução de 1979, considera o véu islâmico um símbolo da religiosidade do país. A prenda é obrigatória a todas as mulheres, inclusive as estrangeiras, desde 1983. Mas a situação já foi a inversa: nos anos 1930, o xá Reza Pahlavi proibiu o lenço, retirado à força pela polícia. Como na Turquia, o véu era visto como um símbolo do atraso dessa região.

Fonte: FOLHA

comentários

Estúdio Ao Vivo