02 de julho de 2018 às 02:00

No Brasil, áreas com mais picadas de cobra têm acesso difícil a soro

O Brasil tem um soro antiofídico que funciona onde não tem cobras, e tem picadas de cobras onde não tem soro. 

O Brasil tem um soro antiofídico que funciona onde não tem cobras, e tem picadas de cobras onde não tem soro. 

A definição dramática de Josimar Vassimpa, 49, índio marubo no Vale do Javari (AM), é o resumo das inúmeras reclamações ouvidas de líderes indígenas, antropólogos, políticos e profissionais de saúde dedicados a índios e não índios na Amazônia, durante as recentes viagens em que a Folha acompanhou o trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado na maior floresta do planeta.

O antídoto para veneno de cobras produzido no Brasil, distribuído por órgãos do Ministério da Saúde, é líquido e precisa ser preservado em baixas temperaturas. Em todas as áreas onde não há energia elétrica para manter um refrigerador, o soro antiofídico não está disponível. 

E esse é o caso da maioria das comunidades amazônicas, onde ocorrem 35% de todos os chamados acidentes ofídicos, as picadas de cobra. Outros países da região, como Colômbia, México e Costa Rica, produzem soro em pó, que o Brasil não importa.

O problema não acomete só índios e nem é exclusividade brasileira. No ano passado, a Organização Mundial de Saúde declarou as picadas de cobra doença tropical negligenciada, definição para problemas sanitários que poderiam ser resolvidos, mas que não recebem a atenção devida.

A resolução da OMS, ratificada pela Assembleia Mundial de Saúde no último dia 24 de maio, em Genebra (Suíça), teve apoio do governo brasileiro que, no entanto, é acusado internamente de negligenciar o tratamento do problema.

As estatísticas oficiais apontam que, a cada ano, 30 mil brasileiros são vítimas de picadas de cobra, 10,5 mil na Amazônia. Das vítimas, cerca de 2 mil têm reações graves e 300 morrem. A pequena proporção de óbitos esconde um elevado número de amputações e paralisias provocadas pelo envenenamento, frequentemente pela dificuldade para administrar o soro. 

No mundo, são 2,5 milhões de casos anuais de envenenamentos por mordidas de serpentes, que causam 125 mil mortes e deixam outras 400 mil pessoas com sequelas físicas ou psicológicas, informou à Folha o pesquisador José María Gutierrez, representante da Costa Rica que foi um dos principais responsáveis pelos documentos que levaram à resolução da OMS.

Tanto no Brasil quanto no exterior os estudiosos apontam uma alta dose de subnotificação: além de mais expostas, as comunidades desassistidas carecem também de comunicação para informar os acidentes aos órgãos de saúde.

O soro antiofídico disponibilizado no Brasil pelo Programa Nacional de Imunização (PNI) do Ministério da Saúde é comprado de três laboratórios públicos, sendo o maior deles o paulista Butantan, responsável por metade da produção nacional. O instituto Vital Brazil (Niterói, RJ) e a Fundação Ezequiel Dias (Belo Horizonte, MG) são responsáveis pelos outros 50%.

As dificuldades decorrentes da falta desse remédio nas áreas sem energia elétrica causam revolta entre as comunidades. Os índios ouvidos pela Folha no Vale do Javari reclamam a importação do soro liofilizado produzido em outros países (Colômbia, México e Costa Rica têm o produto). 

Muitos profissionais acostumados a viajar pela Amazônia, contam que frequentemente levam o soro colombiano, que não pode ser vendido no país por não ser reconhecido pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

No entanto, técnicos do Butantan e médicos consultados pela Folha dizem que o produto não oferece segurança ao consumidor brasileiro por não ter sido produzido com venenos de serpentes locais.

O médico Douglas Rodrigues, por vários anos coordenador do programa Xingu da Escola Paulista de Medicina (Unifesp), diz que se defrontou muitas vezes com problemas decorrentes da falta de geladeiras para o soro. "No Parque Indígena do Xingu, a vítima é rapidamente levada de avião para a vizinha Canarana (MT). Mas em muitos lugares não há essa possibilidade. É preciso implantar fontes de eletricidade em todas as comunidades."

Ricardo Affonso Ferreira, criador da ONG Expedicionários da Saúde, que a cada ano realiza milhares de cirurgias gratuitas em toda a Amazônia, sugere que os órgãos oficiais façam testes para determinar quanto tempo um soro líquido mantém sua eficácia fora da geladeira, como possibilidade alternativa.

Em 1999, o Exército Brasileiro encomendou soro liofilizado ao Butatan para usar em suas unidades na Amazônia. O remédio foi desenvolvido em caráter experimental numa parceria do Instituto de Biologia do Exército (Ibex) com o laboratório paulista. As primeiras doses foram entregues em 2000.

Segundo estudo feito na época, a partir de 102 atendimentos a vítimas de picadas (58 tratados com o soro liofilizado e 44 com a versão tradicional), não houve diferença estatística na quantidade de reações adversas entre os dois tipos de soros, segundo os pesquisadores Iran Mendonça da Silva e Antônio Magela Tavares. 

Sem um investimento externo, no entanto, o Butantan não deu sequência ao desenvolvimento do produto.
Quando senador, o atual governador do Acre, Tião Viana, propôs uma lei determinando ao Ministério da Saúde a produção de 50% de soro liofilizado. Aprovada no Senado em 2003 e nas comissões da Câmara em 2009, o projeto aguarda há nove anos pela votação em plenário. "O tema é negligenciado também pelo Congresso Nacional", afirma.

Não há pedido de registro de soro em pó, diz ministério

Questionado sobre a razão para não produzirmos soro antiofídico em pó, o Ministério da Saúde diz que não há demanda registrada e que a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) tem condições de administrar as ocorrências.

A pasta diz ainda que em 2017 fez mais de 4 milhões de atendimentos em mais de 5.500 aldeias em 1,1 milhão de km², em um conjunto de 305 etnias e 274 línguas diferentes.

"Segundo dados consolidados sobre os acidentes com animais peçonhentos (...) foram registrados 173 em 2017 e 31 em 2018. Desse total, oito foram no Vale do Javari, em 2017 e um em 2018, até o momento. Não há registro de óbitos na região nesse período."

O ministério também afirma que todo medicamento e insumo precisa da aprovação da Anvisa e da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) antes da disponibilização, e que qualquer pessoa pode fazer o pedido de incorporação.

Segundo a Anvisa, não foi protocolado nenhum pedido de registro de soro antiofídico proveniente da Colômbia. Ainda segundo a agência, o tempo regulamentar para uma análise é de 365 dias ou de 120 em casos prioritários. Já a importação por pessoa física é permitida exclusivamente para uso individual.

O Butantan afirma que pode produzir o soro seco se o Ministério da Saúde encomendar, mas que isso significaria uma etapa a mais no processo produtivo, que demandará tempo e dinheiro. Questionado, o porta-voz do órgão não quis fazer estimativas, porém.

Pedindo para não ser identificado, um técnico do Butantan disse que o investimento em uma máquina de liofilização seria de cerca de US$ 1 milhão (R$ 3,8 milhões) e, depois, o frasco de soro seco custaria cerca de 50% mais do que o líquido, hoje entre R$ 150 e R$ 200 por dose. Um acidente ofídico demanda vários frascos, dependendo da gravidade.

Fonte: FOLHA

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